A partir de hoje, passo a assinar também outro blog:
http://www.6loggers.com
Aguardo sua visita.
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| Date: | 2009-02-03 11:51 |
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Battisti, o expulsável
O STF está para julgar o caso Battisti. Nas discussões em curso, apenas duas opções têm sido aventadas: extradição ou refúgio. Aventa-se, aqui, uma terceira: expulsão.
O refúgio já foi concedido por ato do Ministro da Justiça. O STF não pode rever o mérito desse ato, conforme decisão dessa mesma Corte em caso análogo. Somente se o ato do Ministro for julgado ilegal é que sua revisão poderá ser feita, por força do comando constitucional de que a lei não excluirá da apreciação do Judiciário a lesão de direito.
O STF poderá considerar ilegal o ato do Ministro, se entender que Battisti cometeu ato terrorista ao participar do grupo Proletários Armados pelo Comunismo - PAC. Tudo isso dependerá da inclinação do STF de atacar a questão e definir o que seja "terrorismo" e "prática de ato terrorista". "Terrorismo" é termo jurídico, está na Constituição Federal (clique aqui); "prática de ato terrorista” também, está no Estatuto dos Refugiados. Mas em lugar algum existe uma definição com força de norma jurídica do que seja um ou outro.
Se a definição desses termos vier a ser de fato estabelecida pelo STF, então poderá ser que Battisti seja enquadrado como "praticante de ato terrorista", caso em que a concessão de refúgio por ato do Ministro da Justiça terá violado o Estatuto dos Refugiados. O ato do Ministro, assim, poderá ser anulado pelo STF.
Anulado dessa forma o ato do Ministro, o STF poderá considerar decidir por extraditar Battisti. Mas o caminho é tortuoso. É que o Tratado de Extradição entre o Brasil e a Itália define que não será atendido o pedido de extradição caso haja risco de a pessoa ser submetida a pena que fira seus direitos fundamentais. Pela Constituição Federal brasileira, combinada com o Código Penal brasileiro, é direito fundamental não cumprir pena superior a trinta anos. Acontece que a Itália condenou Battisti à prisão perpétua. A pena italiana fere a Constituição Brasileira, logo a extradição não pode ser concedida.
O Tratado de Extradição entre Brasil e Itália não tem qualquer dispositivo que preveja a hipótese de o País Requerido impor condições à extradição - ao que o STF chama de "modulação da pena". Dispositivo com esse teor consta, por exemplo, do Tratado de Extradição entre Brasil e Estados Unidos.
Na ausência de um dispositivo com esse teor, é arriscado conceder a extradição mediante a imposição de modulação de sentença, sendo que, pelo Tratado aplicável, a Itália não está obrigada a seguir essa condicionalidade.
Ter-se-á, então, um Battisti nem extraditado, nem refugiado. Mas esse ainda não é o fim.
Nesse caso, só restará a Battisti a condição de estrangeiro, que é sujeita às regras de imigração. Porém, as regras de imigração prevêem que ao estrangeiro que use documentos falsos para entrar no Brasil, e assim Battisti o fez, cabe expulsão.
Nessa nova quadra, Battisti nem será extraditado, nem refugiado, mas sim expulso. E expulso para um terceiro país, que não a Itália. Ou quarto, porque para a França ele tampouco poderá ir.
Esta será uma decisão técnica, por meio da qual a Itália seguirá atrás de seu cidadão; e Battisti continuará em sua luta pela liberdade.
Brasília, 3 de fevereiro de 2009
Caio Leonardo Bessa Rodrigues
*publicado em www.migalhas.com.br *revisto em 9.9.9
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The January 26, 2009 edition of The New Yorker puts Obama literally in Washington:
 Obama, by The New Yorker
 George Washington, by Rembrandt Peale
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| Date: | 2008-12-23 11:56 |
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Xmas Lights, foto by Caio Leonardo - 22.dec.2008
Persas e hindus celebravam em nome de Mitra a vitória do sol sobre as trevas, no solstício de inverno, o dia mais curto do ano, 21 de dezembro no hemisfério norte. Essa é a mesma data em que os celtas celebram o Sol Criança, e crêem ter sido a data de nascimento do rei Arthur, no castelo de Tintagel, daí a celebração de Alban Arthuan (“a luz de Arthur”), uma das quatro “luzes” (Albans) em que se divide o ano celta.
Com Aureliano, os romanos passaram a celebrar o Deus Sol Invictus, inspirados no mitraísmo, pela mesma razão solar, porém em 25 de dezembro. Constantino, o imperador que tornou o cristianismo a religião do Império Romano, antes disso cunhava suas moedas com a efígie do jovem e imberbe Sol Invictus. Há quem sustente que vem daí os cristãos celebrarem o nascimento do deus feito homem em 25 de dezembro. Em 25 de Kislev (não exatamente dezembro, mas esses meses não raro se sobrepõem) os judeus celebram o milagre do óleo, que queimou miraculosamente não por um, mas por oito dias na menorah do Templo após a sua liberação por Judas Macabeus.
As festas em torno do solstício inspiraram o Natal; e o Natal norte-americano tem em alguma dose influenciado, desde o advento do Sionismo, a festa do Hannukah, com crianças recebendo presentes, em vez da tradicional gelt, ao cabo do oitavo dia de celebração, entre queijos e vinhos, em homenagem ao triunfo de Judite sobre Holofernes.
Seja pela religação com os astros, seja pela religação com seu deus, seja pela religação com seus ancestrais, seja até mesmo só por haver motivos alheios para festa: celebremos, cada um a seu modo, esta época do ano - porque todo rito de passagem serve a dar sentido à vida.
Feliz Natal. Gmar chatimah tovah. Que a luz vença as trevas.
caio leonardo bessa rodrigues em 23 de dezembro de 2008
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| Date: | 2008-12-08 16:08 |
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foto: caio leonardo 8.12.2008
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Para Aldo
Grave. Verga?
Não vergo. Governo-a.
De longe, só - nos degole.
caio leonardo 7.12.2008
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| Date: | 2008-11-30 19:17 |
| Subject: | ANAGRAMAS |
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para Aguinaldo Anselmo Franco de Bastos
Ando - Guiando astros e clan blasfemo.
para Caroline Faoro Roman Ros
Flor no rio, remar só: canoa.
caio leonardo 30.novembro.2008
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| Date: | 2008-11-12 15:24 |
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Névoa na alvorada, Sol sobe sobre o palácio: Os arcos de Oscar.
caio leonardo 12.nov.2008
nota: não tirei a foto...
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 source: http://my.barackobama.com/page/content/hqblog/
Remarks of President-Elect Barack Obama
(as prepared for delivery)
Election Night
Tuesday, November 4th, 2008
Chicago, Illinois
If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible; who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.
It’s the answer told by lines that stretched around schools and churches in numbers this nation has never seen; by people who waited three hours and four hours, many for the very first time in their lives, because they believed that this time must be different; that their voice could be that difference.
It’s the answer spoken by young and old, rich and poor, Democrat and Republican, black, white, Latino, Asian, Native American, gay, straight, disabled and not disabled – Americans who sent a message to the world that we have never been a collection of Red States and Blue States: we are, and always will be, the United States of America.
It’s the answer that led those who have been told for so long by so many to be cynical, and fearful, and doubtful of what we can achieve to put their hands on the arc of history and bend it once more toward the hope of a better day.
It’s been a long time coming, but tonight, because of what we did on this day, in this election, at this defining moment, change has come to America.
I just received a very gracious call from Senator McCain. He fought long and hard in this campaign, and he’s fought even longer and harder for the country he loves. He has endured sacrifices for America that most of us cannot begin to imagine, and we are better off for the service rendered by this brave and selfless leader. I congratulate him and Governor Palin for all they have achieved, and I look forward to working with them to renew this nation’s promise in the months ahead.
I want to thank my partner in this journey, a man who campaigned from his heart and spoke for the men and women he grew up with on the streets of Scranton and rode with on that train home to Delaware, the Vice President-elect of the United States, Joe Biden.
I would not be standing here tonight without the unyielding support of my best friend for the last sixteen years, the rock of our family and the love of my life, our nation’s next First Lady, Michelle Obama. Sasha and Malia, I love you both so much, and you have earned the new puppy that’s coming with us to the White House. And while she’s no longer with us, I know my grandmother is watching, along with the family that made me who I am. I miss them tonight, and know that my debt to them is beyond measure.
To my campaign manager David Plouffe, my chief strategist David Axelrod, and the best campaign team ever assembled in the history of politics – you made this happen, and I am forever grateful for what you’ve sacrificed to get it done.
But above all, I will never forget who this victory truly belongs to – it belongs to you.
I was never the likeliest candidate for this office. We didn’t start with much money or many endorsements. Our campaign was not hatched in the halls of Washington – it began in the backyards of Des Moines and the living rooms of Concord and the front porches of Charleston.
It was built by working men and women who dug into what little savings they had to give five dollars and ten dollars and twenty dollars to this cause. It grew strength from the young people who rejected the myth of their generation’s apathy; who left their homes and their families for jobs that offered little pay and less sleep; from the not-so-young people who braved the bitter cold and scorching heat to knock on the doors of perfect strangers; from the millions of Americans who volunteered, and organized, and proved that more than two centuries later, a government of the people, by the people and for the people has not perished from this Earth. This is your victory.
I know you didn’t do this just to win an election and I know you didn’t do it for me. You did it because you understand the enormity of the task that lies ahead. For even as we celebrate tonight, we know the challenges that tomorrow will bring are the greatest of our lifetime – two wars, a planet in peril, the worst financial crisis in a century. Even as we stand here tonight, we know there are brave Americans waking up in the deserts of Iraq and the mountains of Afghanistan to risk their lives for us. There are mothers and fathers who will lie awake after their children fall asleep and wonder how they’ll make the mortgage, or pay their doctor’s bills, or save enough for college. There is new energy to harness and new jobs to be created; new schools to build and threats to meet and alliances to repair.
The road ahead will be long. Our climb will be steep. We may not get there in one year or even one term, but America – I have never been more hopeful than I am tonight that we will get there. I promise you – we as a people will get there.
There will be setbacks and false starts. There are many who won’t agree with every decision or policy I make as President, and we know that government can’t solve every problem. But I will always be honest with you about the challenges we face. I will listen to you, especially when we disagree. And above all, I will ask you join in the work of remaking this nation the only way it’s been done in America for two-hundred and twenty-one years – block by block, brick by brick, calloused hand by calloused hand.
What began twenty-one months ago in the depths of winter must not end on this autumn night. This victory alone is not the change we seek – it is only the chance for us to make that change. And that cannot happen if we go back to the way things were. It cannot happen without you.
So let us summon a new spirit of patriotism; of service and responsibility where each of us resolves to pitch in and work harder and look after not only ourselves, but each other. Let us remember that if this financial crisis taught us anything, it’s that we cannot have a thriving Wall Street while Main Street suffers – in this country, we rise or fall as one nation; as one people.
Let us resist the temptation to fall back on the same partisanship and pettiness and immaturity that has poisoned our politics for so long. Let us remember that it was a man from this state who first carried the banner of the Republican Party to the White House – a party founded on the values of self-reliance, individual liberty, and national unity. Those are values we all share, and while the Democratic Party has won a great victory tonight, we do so with a measure of humility and determination to heal the divides that have held back our progress. As Lincoln said to a nation far more divided than ours, “We are not enemies, but friends…though passion may have strained it must not break our bonds of affection.” And to those Americans whose support I have yet to earn – I may not have won your vote, but I hear your voices, I need your help, and I will be your President too.
And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world – our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down – we will defeat you. To those who seek peace and security – we support you. And to all those who have wondered if America’s beacon still burns as bright – tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from our the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.
For that is the true genius of America – that America can change. Our union can be perfected. And what we have already achieved gives us hope for what we can and must achieve tomorrow.
This election had many firsts and many stories that will be told for generations. But one that’s on my mind tonight is about a woman who cast her ballot in Atlanta. She’s a lot like the millions of others who stood in line to make their voice heard in this election except for one thing – Ann Nixon Cooper is 106 years old.
She was born just a generation past slavery; a time when there were no cars on the road or planes in the sky; when someone like her couldn’t vote for two reasons – because she was a woman and because of the color of her skin.
And tonight, I think about all that she’s seen throughout her century in America – the heartache and the hope; the struggle and the progress; the times we were told that we can’t, and the people who pressed on with that American creed: Yes we can.
At a time when women’s voices were silenced and their hopes dismissed, she lived to see them stand up and speak out and reach for the ballot. Yes we can.
When there was despair in the dust bowl and depression across the land, she saw a nation conquer fear itself with a New Deal, new jobs and a new sense of common purpose. Yes we can.
When the bombs fell on our harbor and tyranny threatened the world, she was there to witness a generation rise to greatness and a democracy was saved. Yes we can.
She was there for the buses in Montgomery, the hoses in Birmingham, a bridge in Selma, and a preacher from Atlanta who told a people that “We Shall Overcome.” Yes we can.
A man touched down on the moon, a wall came down in Berlin, a world was connected by our own science and imagination. And this year, in this election, she touched her finger to a screen, and cast her vote, because after 106 years in America, through the best of times and the darkest of hours, she knows how America can change. Yes we can.
America, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves – if our children should live to see the next century; if my daughters should be so lucky to live as long as Ann Nixon Cooper, what change will they see? What progress will we have made?
This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time – to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the American Dream and reaffirm that fundamental truth – that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can’t, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people:
Yes We Can. Thank you, God bless you, and may God Bless the United States of America.
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photo source: www.guardian.co.uk
Hamilton is responsible for my coming back to watching F1. He displays a thrilling mix of boldness, courage and imperfection - a major feat after all those years of tedious rule by the boringly impeccable Schumacher.
Yesterday's was a race in search for supporting actors. Both protagonists were all set to bore us stiff. All Massa and Hamilton had to do was to defend their own positions, no thrill. At least four other characters were needed to compose an appealing plot. But the grid was short of two. The usual suspects were Alonso and Raikkonen, with Kovalainen playing Robin and having to block other racers who could threat the Dark Knight's fourth position. But there were no real threats to Hamilton, were there? Well, in spite of the shortage of Aces - and Jokers and even Penguins with their umbrellas -, fate itself came up with a first and powerful nemesis the protagonists had to confront with: the rain.
With the rain, umbrellas and two Italians. Fisichella and Trulli runned for a while among the firsts, but they went even faster into oblivion. The rain scheme did not work that well in the benefit of Drama in its first appearance. Hamilton maintained his position, and so did Massa. The real thrill would come in the last laps.
Many may agree that Vettel is a rising star, but Glock would be a bad choice by a playwright. Only real life can bring together guys like these to establish a moving conflict, never a fictionist. The rain falls again, and deo ex machina puts its spell on us: Glock appears out of the grey skies of São Paulo with his machina looking like a minicooper in a monster trucks race. How did he end up there, in the f…ourth place? He just did, don't ask, rule number one in Greek plots like this.
And then Vettel, two laps to the final flag. A shrink lives next door. The way I screamed when that happened, I would be now wearing a straightjacket if it weren't for Foucault.
Final lap and nobody breathes. A traffic jam in the last 400 yards and Glock exits the way he entered, a ghost put there just to haunt Hamilton, a fallen angel to inspire Massa. But the angel did fell in the end, spreading feathers, shutting shouting mouths and making shut mouths shout.
Marvel Comics would not release a feature with those elements - too tacky. But in real life it made the best race ever.
Hamilton and Massa made History, and so did Alonso, Raikkonen, Glock, Vettel, and other Jokers and Aces and umbrellaed Penguins, who thank them for all the fishes.
Caio Leonardo
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John Donne (1572/1631) é um dos grandes da Inglaterra, poeta metafísico, jovem de mulheres e homem de letras, a quem a educação católica pôs em apuros e a conversão à igreja fundada por Henrique VIII acabou por salvar. Em 1615, após ter-se engraçado com quem não podia, escapou de um triste fim com a ajuda de James I, que o fez ordenar-se anglicano e lhe deu Saint Paul's Cathedral, para que lá proferisse sermões que marcaram seu tempo, assim como é sua a marca sobre a poesia daquela época e lugar.
"A Valediction: Forbidding Mourning" é para Donne quase um verbete do saboroso Dictionnaire des Idées Reçus, de Flaubert. Podia bem estar lá: John Donne, aquele de "A Valediction..." etc. Mas esse poema tão óbvio quando se pensa em Donne é que traz este verso que é um dos meus favoritos em toda a língua inglesa: "dull sublunary lovers love". Há uma musicalidade ondulante em sua escansão que nos leva a um forte pico logo em sub/LU/nary, para depois nos deixar rolar pela encosta de um vale que desce até o amor que descansa depois do gozo. Esse verso é a imagem sonora mesma do ato sexual, cujo caráter físico é ao que Donne quer se referir, quando fala do tedioso amor dos amantes sublunares, para ele mera necessidade de presença, de olhos, lábios e mãos. O amor dele, poeta metafísico, é outro: a distância não é quebra, é expansão, por serem os dois uma alma só. A imagem a que recorre para descrever esse outro amor é a de dois amantes tão unos como as pontas de um só compasso:
"Thy firmnes drawes my circle just, And makes me end, where I begunne".
Em Meditation XVII, surge outra passagem lugar-comum, por ter sido a fonte do título de uma das grandes obras de Hemingway: "No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. (...) [A]nd therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee."
"Nenhum homem é uma ilha, inteiro de si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte do todo; então não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."
Vale dizer, nenhum homem é idiota. Idiota, etimologicamente, é aquele que vive num mundo próprio, ensimesmado – “idios”, pessoal, próprio, singular; “otes”, habitante. O “habitante de si mesmo”. O vocábulo é muito mais interessante e rico nessa acepção, do que nas suas derivações.
Quem muito se fecha passa a ser difícil de ser compreendido - pelo Outro. A dificuldade de compreensão é de quem observa, e não do observado. Mas quem leva a fama é justamente o observado, cuja idiotice, ou ensimesmamento, resultou nos desvãos da semântica em sinônimo de “pouca inteligência”. Nalgum momento na vida dos "idiotas", o isolamento que os define deve ter ferido alguma suscetibilidade, e terá sido a partir daí que o termo passou a ter, por despeito, o sentido pejorativo. Ora, se narciso acha feio o que não é espelho, então o isolamento é a feiúra no mundo dos homens-continentes, onde é inconcebível o homem-ilha. No man is an island, case closed.
O solipsismo (esse estado mental a que aludo com freqüência, que se resume na impressão de que “só eu existo no mundo, não existe o Outro”) está entre os estágios mais primários da compreensão do ambiente em que se vive. Começa-se a superá-lo por volta da segunda metade dos primeiros dez anos de vida. Pode-se sustentar, com alguma boa vontade, que a conduta “idiota”, na “pura acepção da palavra”, é um passo na evolução para além do solipsismo, mas que ainda mantém um pé nele. O idiota já deixou de achar que só ele existe, mas preferiu viver no seu próprio mundo. Porém, ver como idiota, no sentido pejorativo, aquele que age como Outro, que age com vontade própria, com rumo próprio, que não aquele rumo que se esperava dele, é negar ao Outro o ser Outro, é querer que o mundo se amolde à sua vontade. Viva e deixe viver.
Siddhartha viveu todos os mundos, assim como Ulisses viveu todas as experiências humanas. Um a Leste, outro a Oeste: os dois, mitos fundadores de civilizações. Ulisses, o homem-continente, que arriscou a vida por seu povo e por sua esposa; já Siddharta, o homem-ilha, que viveu entre o povo, que reinou sobre o povo, que se entregou ao amor carnal, e que ao fim de sua jornada voltou-se para si mesmo e em si mesmo encontrou o sentido para sua existência. Dois itinerários tortuosos, dois destinos distintos. Qual o melhor, isolamento ou gregarismo, com trocadilhos?
Siddhartha, acrescento logo, mesmo na culminância do nirvana, seguiu vivendo em sociedade, porque seu corpo lá estava, nalgum ponto da Índia - portanto jamais foi totalmente ilha. Que atitude tinham os demais diante dele - além da veneração que ele já merecia em vida? Teriam querido Siddhartha para si?
Querer trazer para perto pode ser um ato de amor, mas também pode ser um ato de opressão. É de amor quando o Outro aceita o chamado. É de opressão quando o chamado é rejeitado, mas ainda assim o Mesmo insiste em que o Outro venha - ou vá. Querer "abrir os olhos" de alguém pode querer dizer, apenas, "veja o mundo como eu o vejo". Como Higgins quis com Eliza. Para Eliza, foi bom. Para outras Elizas, talvez não. E se Eliza quisesse levar Higgins para o seu mundo?
Um mundo sem solipsistas é um mundo em que todos respeitam a alteridade, essa “qualidade de ser Outro”. E respeito se conquista, diz o lugar-comum. Quando chamados equivocados se exaurem, melhor o silêncio e a distância. Quando esse silêncio respeitoso é compreendido como fraqueza, é preciso, lamentavelmente, subir o tom. Mesmo que seja apenas para garantir seu direito de se manter quieto em sua ilha, contra a vontade alheia. Não ser uma ilha não retira a ninguém o direito de recolher-se.
Da ilha para o mar, não são os sinos que fazem o alerta, mas o farol, silencioso e fulgurante no giro perfeito do oclusor, traçado pelo compasso que une dois distantes amantes, compasso nada silente de tango sobre tacos de madeira, vinho barato e cravo na boca, rechiflao en mi tristeza. Caio Leonardo 19.10.2008  fonte:http://cabodofimdomundo.blogspot.com
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Guimarães Rosa é o maior escritor de todos os tempos. Eis aí um jeito antipático de começar uma conversa. Primeiro, por fazer uma afirmação tão incauta; depois, por imaginar que se possa ter autoridade para fazer uma afirmação desse porte. Não tenho, o que tenho é essa admiração incontida e paralisante por sua obra.
Outro dia, no entrefôlego das conversas vertidas em espanhóis de diferentes procedências e qualidades, em mais uma mesa na casa do conselheiro Devoto, acabei por me atrever a fazer umas afirmações assim, e ainda traçar um itinerário improvável de referências cruzadas que brotaram do resto de entendimento que ainda permitia o terceiro vinho depois das doses de boas-vindas de espumante.
O espanto, porque é de espanto que se trata, o espanto com a obra de Rosa que quis passar à majestática Sra. Paz-Estenssoro, ao terrível Ivan Godoy e à monumental Gabriela de Michael, estava também na linhagem que tentei traçar e que teria dado em Rosa, entre tantas que já se fizeram.
Rosa é único, este foi o ponto de partida. Ele inventou uma língua, cuja base é o português falado no sertão de Minas e de Goiás, mas esse português foi desconstruído e desarranjado por meio de recursos a experiências gramaticais, semânticas e fonéticas que ele ia buscar na dúzia de idiomas que conhecia, mal ou bem. Isto é o que se diz sempre que se fala de Rosa, nenhuma novidade.
O que diferencia Rosa de Faulkner? Faulkner também foi buscar um falar de gente do interior para construir tramas complexas, como bem observou Sandor outro dia, e oferecer personagens de alta densidade dramática, mesmo que num conto. Mas Faulkner recorria à mímese, à imitação. Rosa não imita: ele esconde na sua linguagem uma complexidade de composição inigualada que ainda assim soa como o falar de gente simples. O extremamente imbricado chega ao bom ouvido como uma canção de boiadeiro, sussurrada em curva de rio que se encordeia verdejar adentro, tarde da noite, tarde outra essa ainda cedo, que em noite de sertão não tarda os olhos brilhar venosos na antecipação do muito cedo que é o acordar no descampado, o orvalho é que desperta, só ele lagriluminoso.
Quando se pensa em complexidade e literatura, Joyce é inevitável. Joyce também reinventou o inglês - e inventou complexas estruturas narrativas, com o que Rosa também gostava de brincar, basta ver o que fez em Sagarana, mais especificamente em Matraga e todas as suas referências clássicas escondidas atrás de uma folha, de uma vela, do que ele quisesse. Mas Joyce tramou contra o inglês convencional por cima, enquanto Rosa conspirou por baixo a favor do português. Joyce é abertamente culto e sofisticado. Rosa é o baú rústico em que se esconde o Aleph.
Rosa não é linear, Joyce até que é, ao menos no Ulysses, já que é uma trama contra o tempo, incrustada nas mais famosas 24 horas (da literatura, que há outras por aí de outra estirpe, para não dizer de estirpe menor). A descontinuidade vertiginosa parece ter surgido com Lawrence Sterne, que está em Joyce, no Machado de Memórias Póstumas, e também em Rosa, no mínimo por sua inapetência pelo corriqueiro, pelo formal, pelo burocrático - e por Belenos, esse homem era um diplomata...!
De onde é que Rosa foi tirar coragem para falar de povo e como povo, com o intento de fazer grande literatura e não literatura regional? Pelo menos na mesa do conselheiro Devoto, depois de sua divertidamente fracassada tentativa de nos inspirar com charutos no entanto ressequidos, que estavam guardados havia três anos, me confessou ele com sorriso cúmplice, e que voltaram todos para a mesma caixa, Guillermo não aprecia "los puros", pelo menos não naquela noite abafada em que as luvas dos garçons ofereciam uma elegância de tortura feita, um sufocamento de mãos, mãos sufocando o corpo inteiro também dos comensais por estarem cobertas de algodão quando queriam um balde de gelo, todos queriam um balde de gelo, pelo menos naquela mesa na noite das mãos sufocadas me pareceu que Rabelais é que teria dito a Rosa: vai, garoto, que eu já fui por aí e veja como não me esquecem.
Rabelais foi o primeiro autor a retratar o povo, o imaginário do povo, as coisas da plebe. Mas retratou isso com uma linguagem rebuscada e fiel ao que via. Rosa não tem linguagem rebuscada, muito menos era fiel ao que via: a experiência roseana é lisérgica, mais que sinestésica.
Se Rosa é maior que Rabelais, Sterne, Joyce e Faulkner, quem é mais? Quem vai ser o estraga-prazeres com insensibilidade bastante para buscar Shakespeare numa hora dessas? Sempre tem. Sempre aparece. Lá na mesa não apareceu, e passamos para o Porto Ruby.
E assim se constróem teses abusadas e sem muita fundamentação, nesse simulacro de café vienense que é um jantar aéreo, como os de Santos Dumont, na casa do conselheiro, lá em cima, no alto do quinto lance de escadas escherianas, nessa mansão de diagonais também elas vertiginosas, madeira de lei, vidro, verde e pássaros da noite.
Caio Leonardo 18.10.2008
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| Date: | 2008-10-17 17:59 |
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Les Brown -
"Shoot for the moon. Even if you miss, you'll land among the stars."
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"_Busque o horizonte!" De então, segue relutante esta voz que dói.
Caio Leonardo, para o dia da criança
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Antonio Peticov "The Long Journey" 70 x 50 cm - 1987
Choro de ninhada. A lua inflama uma aranha. Come, quero-quero.
caio leonardo 8.10.2008
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George W. Bush foi criticado por seu último discurso na Assembléia Geral das Nações Unidas. Falou pouco da crise financeira gerada por seu país e com impacto sobre todo o mundo. Falou mais sobre a guerra contra o terrorismo. Bush está certo, da perspectiva dos interesses que defende e das conseqüências da própria tal crise para esses interesses.
A crise do "subprime" afetou os maiores bancos norte-americanos, seguradoras, fundos de investimento. Dragou as linhas de crédito internacionais. É uma crise de liquidez, não há dinheiro no mercado. Para isto, todos os olhos estão voltados.
Muitos olhos também se fixam na intervenção estatal em todas as economias relevantes do mundo. Mais ainda sobre as medidas tomadas pelas autoridades econômicas norte-americanas. É, de fato, urgente que medidas que só o Estado pode tomar sejam implementadas no curto prazo, para mitigar o impacto dessa crise.
Mas nenhum olhar, que não o de Bush, voltou-se para a guerra contra o terrorismo neste momento. O apelo do pior presidente dos EUA em toda sua história foi no sentido de que não seja arrefecido o ânimo dos seus aliados no combate ao fundamentalismo religioso que abraçou a violência no Oriente Médio e na Ásia, e que ameaça as assim chamadas liberdades democráticas tipicamente ocidentais.
Bush está certo em manter o foco nessa questão, porque este é o momento mais frágil de toda a História dos conflitos entre Israel e o Mundo Árabe-Muçulmano.
O equilíbrio tenso entre esses dois pólos sempre foi mantido pela equivalência do poderio econômico de cada lado: o Mundo Árabe-Muçulmano mantido pelos petrodólares; Israel mantido pela banca internacional.
Pois bem, a banca internacional quebrou. O equilíbrio está desfeito.
Os EUA estão lutando pela sua própria sobrevivência como economia, não como superpotência militar. Esse segundo papel já vem se demonstrando insustentável. Aquele primeiro ainda se mantinha sólido, incontrastável.
O custo da sobrevivência econômica norte-americana praticamente retirará a sustentabilidade das ações militares do Gigante do Norte no Iraque e no Paquistão, num momento em que o preço do petróleo escila violentamente, sem jamais projetar perdas para, por exemplo, o Irã, que segue sua firme rumo à sua nuclearização.
O mundo do petróleo cada vez mais forte e cada vez mais nas mãos de Estados não-alinhados com os EUA (Irã, Rússia, Venezuela), a ascensão da China como potência financeira (está comprando participações vultosas, salvando mesmo, um dos grandes pilares em ruínas de Wall Street), uma China não-alinhada com os EUA e com pretensões de ela própria tornar-se senhora da economia mundial: este é um quadro de grande instabilidade para Israel.
Enquanto isso, internamente, Israel está em comoção política. Seu primeiro-ministro caiu sob acusação de corrupção. Um novo gabinete está sendo formado pelas mãos da primeira mulher em muito tempo a ser alçada a essa posição. Tem cinqüenta dias para montar um governo de coalisão.
Cinqüenta dias de vácuo político justamente no momento de maior desequilíbrio entre as forças que sustentam a sobrevivência de Israel.
Bush estava certo: é preciso manter os olhos no Iraque, no Irã, no Paquistão, no Afeganistão e em Israel.
Mais do que nunca.
Caio Leonardo
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| Date: | 2008-09-24 03:11 |
| Subject: | |
| Security: | Public |
O seu golpe é medo
O seu gorpe é medo
O seu gorp'é medo
O seu gorpe medrô
O ser gorpe medrô
Osser gorpe medrô
Ossergorp e medro o r d e m e p r o g r e s s O
Caio Leonardo 24.9.2008
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Mar, areia, nuvem: Santo Antonio de Lisboa - os barcos esperam.
Caio Leonardo 23.9.2008
Photo by Caio Leonardo, primeiro dia da Primavera
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| Date: | 2008-08-16 10:26 |
| Subject: | ANOITECER |
| Security: | Public |
Azul, amarelo, vermelho, depois laranja: Negro, prata e brilhos.
Caio Leonardo
 Wassily Kandinsky. Twilight. 1943. Oil on card. 57.6 x 41.8 cm. The Solomon R. Guggenheim Museum, New York, NY, USA
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Abriu com displicência a mensagem eletrônica, promoção de um jornal igualmente eletrônico. Dizia mais ou menos assim:
“O livro ..., que será lançado no dia 22 de setembro, trará os diversos personagens e as passagens nas quais o escritor se utiliza do jargão jurídico. (...) Você também pode fazer parte dessa história, adquirindo um exemplar antecipadamente, o que lhe dá o privilégio de ver seu nome incluído na lista de compradores constante do próprio livro.”
Ficou perturbado. Não por receber mais uma promoção na caixa de entrada, mas com aquela coisa de "privilégio" por figurar numa "lista de compradores constante do próprio livro". Pensou em ignorar a proposta, como fazia com as ofertas diárias de outros livros, de curas milagrosas e de soluções para o tamanho do seu pênis.
Que angústia... Resolveu responder.
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Prezados Senhores,
Aparecer num livro como seu comprador... Agradeço; mas, não.
Borges e seu amigo Bioy-Casares divertiam-se em jogos mentais, em busca da história jamais contada. Inventaram entre outros um conto policial em que o investigador está preso; mas as provas que precisa coletar, pelo mundo afora. Cortázar, outro argentino, oferece um conto em que o assassinado é o próprio leitor. E agora, isto: o livro de que o leitor é parte, mas não como personagem, nem como intérprete, mas como seu comprador. Proposta perigosa, sem saída. Inaceitável.
Parece natural. O leitor costuma mesmo ser comprador antes de tornar-se leitor. Basta notar que, para ler um livro, é costume precisar tê-lo em mãos - com exceções, a começar pelo próprio Borges, que, a partir de um determinado momento, não precisou mais disso (tinha Maria Kodama que lia para ele). Mas fiquemos na hipótese de ser preciso ter o livro em mãos para lê-lo. Nesse caso, é verdade, o ato de comprá-lo não é totalmente estranho ao processo. Alguém compra o livro e pronto: se tiver tempo e não for o caso de seu primo Fábio levá-lo distraído em sua capanga para Jaguariaíva, esse alguém vai acabar sofrendo uma metamorfose corriqueira, que fará do comprador, um leitor, contente ou descontente, segundo sua opinião. E advogado é gente de opinião, é paga para isso. O comum é que esse alguém prepare bem sua opinião sobre o livro para o jantar com os amigos do tribunal - e ela será arrasadora, cheia de certezas sobre as inconsistências da trama, que esse alguém só terá notado depois do Muscat Beaumes de Venise sobre carpete verde e mogno.
Mas... e se esse alguém aceitar aparecer num livro como seu comprador, atendendo à promoção desse rotativo tão lido pelos amigos do tribunal? Não se iludam. O comprador permanecerá comprador. O livro, ele mesmo, sentenciará: comprador! Comprador sempre, dirá a sentença, eternizada nalgum lugar entre a página três e a contracapa – pior ainda se na orelha, horrível uma sentença sendo repetida eternamente na orelha.
Toda vez que o comprador abrir esse livro, ficará preso no labirinto em que não, não és leitor: és ainda e sempre comprador. A tal metamorfose impossibilitada pelo eterno retorno da condição de comprador. No labirinto, para sempre crisálida.
E os amigos do tribunal rindo dele, apontando o seu nome entre ovos, larvas e outras crisálidas. Desconsolado, preferirá então uma grappa.
Minha resposta é não. E espero que baste.
At.,
CL
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Não bastou. Estava nauseado. Dos drinques no nono andar do Jockey Club, o olfato o levou ao outro lado do mundo jurídico, aquele onde sobrevivem Trés Brüt e Brylcrem; o tergal no terno; a camisa preta e a gravata verde. Anel, cordão, perfume barato. A balança, por Themis!, a balança, inevitável como Ronda, como New York, New York... A balança, a espada, a venda... e, agora: a compra. Tudo compunha a imagem presente de um outro "comprador". Um comprador a procurar vaidosamente seu livro - e no livro, seu nome -, nalguma estante, de degrau em degrau, pelas escadas de Escher.
Sentiu então o que sentira durante O Anjo Exterminador, de Buñuel, que vira com Gomes Moor, amante de Borges e Cortázar, na São Paulo dos 1980. O plot, um jantar formal que se torna interminável. Os comensais, todos diplomáticos, tribunalícios. Sobrevém, então,a impossibilidade psíquica inexplicável de sair do casarão. Amanhece, ninguém sai; anoitece, ninguém sai. O black-tie e as formalidades da alta roda passam a dar lugar à selvageria ditada pela fome e pela sede. Surgem carneiros! Comem os carneiros. Saem depois de ao menos uma morte e da ameaça de um rito sacrificial.
Lembrou-se do rapaz que saiu correndo da sala de projeção na última cena, quando, na missa de ação de graças pela libertação dos comensais, outros carneiros entram na igreja - e as pesadas portas de madeira se fecham atrás deles...
Lembrou de ter rido do rapaz que correu; mas riu pouco, riso contido. Lembrou de ter saído da sala lentamente, afetando coragem. Lembrou da opressão que sentira ao chegar ao foyer. Da opressão do teto que a memória agora tingia de vermelho escuro. Preciso fugir também. Já na calçada, da opressão da marquise da Sala Cinemateca. Da opressão do céu minúsculo da Vila Madalena. Da opressão que o levou para o meio da Fradique Coutinho, para livrar-se das paredes, dos tetos, do céu que já era teto, ele lá no meio da rua, oprimido.
Eram já dois labirintos. Um dentro do outro. O do comprador e o do anjo. O da compra e o do casarão. Um levando ao outro; e ambos, a lugar nenhum.
Desligou o umidificador de ar, como está seco em Brasília neste 2008... Fechou o computador, pegou o paletó, tomou um táxi e seguiu para o jantar no lago Sul. Jantar em torno do embaixador da Áustria, que se despedia do Brasil, que ia para longe, que seguia para a imensidão gelada do Canadá, que partia, que saía dali. No táxi, abriu a janela, deixou o vento bater em seu rosto. Sorriu.
"Sport fino", dizia o convite enviado pelo conselheiro Guillermo Devoto - da Embaixada da Argentina, que mora num belo casarão.
Caio Leonardo 13/14 de agosto de 2008
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